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“Mas você notou algo, Charlie Brown? O mundo não terminou”


Eu nunca tive contato com nada do universo de Charlie Brown, sempre pensei que fosse aquelas marcas feita para vender roupa e bonecos para criança, como a Hello Kitty, por exemplo, esses personagens que você em todo canto, mas não faz ideia do background deles, sinto que para muita pessoas o Snoopy é isso, e o Charlie Brown e sua turma também, são meros bonecos bonitinhos feitos para estampar camisas.

Eu pensava assim também, mas tudo mudou esse ano, quando minha namorada chegou com a proposta de vermos o filme dos Peanuts lançado em 2015, ou como foi chamado no Brasil: Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme, o que é engraçado já que apesar do Snoopy ter um bom tempo de tela em especiais e outras mídias dos Peanuts, ele não é o personagem central das tramas, ele é mais um alivio cômico, mas como eu disse, ele é o mais conhecido do desenho justamente por essa silhueta famosa dele que vemos em todos os cantos.

Voltando para o convite da minha namorada em ver esse filme, confesso que neguei e fiquei relutante por muito tempo, pra mim era mais um daqueles filmes infantis sem alma feitos pra vender e que no fim eu ia ficar triste por ter perdido 1h30 da minha vida que nunca vou ter de volta, mas no fim ela conseguiu me convencer a assistir, como ela sempre convence, e então pra minha surpresa eu descobri que o universo dos Peanuts é muito mais do que apenas desenhos bonitos e fofinhos, são lições de vida.

O que o universo de Charlie Brown tem de tão especial?

Se eu pudesse traçar um paralelo para o Brasil, eu diria que Charlie Brown é um turma da Mônica, só que americano, mas você dificilmente vai me pegar lendo ou assistindo algo da turma da Mônica, e essa diferença se dá no que Charlie Brown faz que turma da Mônica não faz, Charlie Brown é profundo, por trás das interações infantis e das coisas que ao olhos das crianças é puramente inocente, ao olhos de um adulto há mensagens, reflexões e coisas que vão ficar em sua cabeça por dias e vão te fazer olhar com mais carinho até para você mesmo, e isso parece exagero mas não é, e foi esse sentimento que fez consumir cada vez mais filmes, especiais e até quadrinhos de Charlie Brown.

Eu gosto muito como Charles Schulz tem a ousadia de mostrar uma criança que tem traços depressivos e que sempre está cabisbaixa porque tudo em sua vida dá errado, não é algo que a gente vê muito comumente em obras desse gênero. Na maioria dos especiais, os problemas que Charlie Brown enfrenta são até que simples aos olhos de um adulto, são coisas como ele não conseguir empinar uma pipa, não conseguir ganhar partidas de beisebol, perder o campeonato de soletrando ou não conseguir falar com a garota que ele gosta, são problemas de criança, porém a maneira como isso é mostrado e construído é muito inteligente, não sendo raso demais e nem complexo demais, mas no ponto certo para impactar todos que assistam.

O melhor exemplo que eu poderia dar e que me inspirou a escrever essa nota é do primeiro filme dos Peanuts, que foi lançado em 1969, chamado "A boy named Charlie Brown", a história se trata de um campeonato de soletrando que está tendo na escola de Charlie Brown, ele está cansado de ser um "perdedor", então ele estuda muito para conseguir vencer o campeonato, e ele consegue, ele se torna o campeão da escola dele, com isso, mesmo que contra a sua vontade e seu medo de falhar e decepcionar a todos, ele é convidado a competir no campeonato nacional de soletrando, todos ao seu redor torcem muito por ele, colocam expectativas que ele vai vencer, fazendo com que Charlie Brown sinta uma enorme pressão em ter que performar bem, então ele dedica horas e horas estudando para tentar se tornar o campeão, porém mesmo com todo o esforço Charlie Brown acaba perdendo o campeonato.

Nessa parte é onde o filme atinge seu ápice pra mim, Charlie Brown quando perde se sente frustrado e principalmente ele tem medo e vergonha só de pensar no que os outros vão pensar a respeito dele quando ele voltar derrotado para casa. Quando ele volta para sua cidade natal, Charlie Brown fica em casa, trancado no seu quarto, sem sair, sem se comunicar com ninguém, remoendo em sua cabeça como vai ser horrível quando as pessoas o virem e ele ver nelas o sentimento de decepção, e eu sei que isso parece ser muito para um desenho de criança, mas é literalmente isso que nós é mostrado, sem diálogos expositivos, sem um narrador pra dizer isso, você sente isso em Charlie Brown, você sente que isso é um caso clássico de alguém que não está bem consigo mesmo, ele está passando por um daqueles momentos onde tudo parece ser grande demais, onde nada dá certo e nos sentimos frustrados com a vida, onde parece que não há escape, onde falhamos e parece que é o fim.

Porém na ultima cena do filme, Charlie Brown recebe uma visita do seu amigo Linus que ao ver a situação em que Charlie Brown está, ele fala o seguinte pra ele:

"Eu posso entender como você se sente. Você se esforçou muito estudando para o soletrando, e aposto que você pensa que você decepcionou todo mundo, e que você fez papel de idiota. Mas você notou algo, Charlie Brown?... O mundo não acabou."

Depois da fala de Linus, Charlie Brown se levanta da cama, se arruma e sai de casa, e ao passar perto dos seus colegas e ao andar pela turma, ele percebe que ninguém estava julgando ele, e que a vida continuava a mesma, a terra ainda girava ao redor do próprio eixo como sempre fez, o mundo não acabou porque ele falhou. E é isso que eu vejo de tão incrível em Charlie Brown, as pessoas querem taxa-lo de perdedor, mas eu não o vejo dessa forma, ele é mais corajoso que muita gente, ele sempre falha em tudo, mas ele continua tentando mesmo sabendo como vai terminar, isso não é característica de um perdedor e sim de alguém muito corajoso.

O mundo não acabou.

Nós falhamos diversas vezes e o mundo não acabou por conta disso, porque dessa vez seria diferente? Quando eu vi esse filme passei dias e dias remoendo ele na minha cabeça e vendo como um filme que parece ser tão simples a primeira vista pode ter um conteúdo tão rico, se você assistiu esse filme e viu essa cena e não se sentiu impactado, você assistiu errado. Charlie Brown dialoga diretamente com as pessoas que falham e continuam tentando, porque essa é a vida, O mundo não acaba quando falhamos, acaba quando desistimos.

Na próxima vez que você se sentir para baixo por algo que deu errado se lembre disso: O mundo não acabou, amanhã é um novo dia e uma nova chance para você e para mim e para todos.

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